O desmame da Nina!

Hoje completamos pouco mais de duas semanas de um processo de desmame total, sem muito sofrimento para mim e para Nina, por mais incrível que possa parecer. Pouco sofrimento porque, após dois anos de amamentação em livre demanda (inclusive nas madrugadas), imaginei choros intermináveis, roupas sendo arrancadas e puxões de cabelo… rs. Mas a minha menininha estava pronta. Eu estava pronta.

Confesso… Tive medo desta despedida. Afinal, após tanto tempo, existe um luto neste processo, um luto de parte de mim e de parte dela, mas há também o nascimento de uma nova fase. Um nascimento de uma menina que deixou de ser bebê, que está descobrindo sua individualidade e sua autonomia (e haja autonomia…) e os prazeres de ser uma “criança grande”. Um nascimento de uma mulher que retoma seu corpo, outrora cedido para gerar e alimentar seu filho (em comemoração ao desmame acho que bebi toda cafeína que podia em um dia e comprei sutiãs que não são de amamentação kkkkk).

Eu não tinha colocado uma meta para acabar. Ou melhor, a meta era acabar quando não estivesse mais sendo prazeroso para mim e/ou para ela. Nina ainda mamava de madrugada, o que nos deixava cansados. Mas eu sempre gostei de amamentar. Sofri muita pressão para parar, embora eu nunca tivesse reclamado da amamentação em si. Ouvi de tudo… Fiquei triste pacas, me questionei inúmeras vezes, mas não a sentia pronta para largar o mamazinho dela. Ouvi conselhos (sem pedir) de várias formas milagrosas de como encerrar a amamentação. Deixa chorar, dá água na mamadeira, dá chupeta, etc etc etc.

Mas eu não queria encerrar um vínculo tão repleto de amor de uma forma que a fizesse sofrer, não queria encerrar esta fase com uma ruptura drástica. Eu sei que não posso evitar o sofrimento de um filho, e que isso faz parte da vida. Mas saber que a minha decisão seria a causa do sofrimento dela, que ela perderia a referência que tinha desde o primeiro minuto de vida, me doía. E, na busca de como fazer um processo gentil e respeitoso conosco e com toda a história que construímos, me dei conta de como a nutrição fala pouco sobre desmame. Como ainda ajudamos pouco as mulheres que querem/precisam encerrar esta fase.

Nesta busca, fui atrás de consultoria sobre o assunto (e recebi críticas também por isso. Afinal, que palhaçada, é só tirar o peito e pronto). Levei alguns meses para começar a “praticar” os ensinamentos e, ainda assim, não fui uma aluna tão aplicada kkkk. Ficou doente, viajamos, entrou na creche… Tudo era motivo para não regular a livre demanda. Pois é, nós não estávamos prontas ainda.

Até que conheci os livros “Mamar quando o sol raiar” e “Tchau, tetê”. Não, não é publicidade. É gratidão. Por meses li os livros para ela. Sem pressa, sem meta. Apenas curtindo aquele momento de leitura com a pequena. Até que, há algumas semanas, comecei a perceber alguns comportamentos diferentes, como que desejando mais autonomia. Não sei explicar, apenas soube: ela estava pronta. E, de alguma forma, vendo-a pronta, eu também senti que estava.

Começamos (ou tentamos começar) com o desmame noturno. Ensinei que de noite era hora de dormir, que o gatinho estava dormindo, que o cachorrinho dormia, que todos dormiam. Que ela só mamaria quando o sol raiasse. Mas a safadinha ficava acordando inúmeras vezes para ver se a lua tinha ido embora e se o sol havia chegado. Quase desisti. Ela acordava de hora em hora, aquilo estava nos enlouquecendo… Novamente busquei ajuda e me falaram que era assim mesmo, para persistir, que o importante era a consistência. Mas eu sabia, de alguma forma, que minha pequena não desistiria fácil.

Decidi então começar o desmame total cerca de 3 semanas depois. Reli o livro “Tchau, tetê” e expliquei que ela tinha feito dois anos, que era uma criança grande, que não precisava mais do mamá. Que agora ela podia fazer um monte de coisas que criança grande faz, como andar de patinete (ela ama…), pular na cama, tomar banho sozinha, etc etc etc. Expliquei que aquele seria o último dia do mamá e que à noite nos despediríamos dele. Naquele dia ela não me deu descanso. Acho que entendeu porque pedia o peito inúmeras vezes, mais que o normal. Mas à noite, antes de dormir, falei que era hora de dar tchau. E assim foi.

Ela chorou no primeiro dia. Nós choramos. Cerca de 3 minutos depois, esqueceu. Chorou mais uma ou duas vezes depois. O mais tenso foi dissociar meu retorno diário do trabalho do peito (acho que ela matava a saudade da mamãe mamando). Mas, ainda assim, chorou muito pouco. Desde então, não tem chorado mais. As vezes fala no mamá, quer ver se ele está aqui, e fala que ele foi embora ou está dormindo, que ela não pode mais mamar… Sinto uma dorzinha no coração às vezes, especialmente quando ela fala uma frase do livro “mamar era muito gostoso”. Também senti uma dorzinha no coração quando percebi que não produzia mais leite, confesso. Mas me surpreendi muito com o processo. Acho que foi tranquilo assim porque nos preparamos para esse momento, juntas. Foi respeitoso com a história que construímos.

Escrevi esse textão porque queria partilhar essa história. Uma história de quem resistiu e persistiu no que acreditava, apesar de todas as opiniões contrárias. Uma história de quem teve a sensibilidade de perceber que tinha chegado a nossa hora, não a hora determinada por outros. Estou muito orgulhosa da minha pequena mas, principalmente, estou muito orgulhosa de mim.

Se alguém me perguntar se faria tudo de novo, se esperaria até dois anos para iniciar o desmame, minha resposta é um assertivo sim. Já sinto saudades e às vezes me pego pensando como era gostoso amamentar. Nem todas as mulheres podem/querem amamentar, mas para aquelas que desejam e tem essa possibilidade, o façam. É pesado, é difícil, é cansativo, é uma doação sem igual. Mas, sem dúvidas, foi a melhor coisa que fiz por nós. Obrigada minha filha por me permitir viver isso.

(Claudia Bocca)

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