Relato de desmame noturno gentil do Theo

Amamentar era um desejo genuíno desde sempre. Ao longo da gestação fui me informando mais sobre o assunto e tinha certeza que amamentar seria um processo natural, prazeroso e, em tese, descomplicado. Mesmo fortalecida da decisão de amamentar, o processo foi longo, dolorido e de muito aprendizado ao longo dos três primeiros meses. Muita fissura, muitas consultorias de amamentação e bancos de leite, laser para tratar essas feridas e muito comprometimento pessoal em romper com uma cultura de não amamentação das mães da minha família. Depois de um processo tão longo para conseguir amamentar o Theo, me comprometi que ele faria um desmame natural. Na minha cabeça conseguiria conciliar rotina de trabalho e amamentação até quando ele quisesse. Estava errada novamente.

Me mudei para longe da família por conta do trabalho e sem rede de apoio quando ele tinha oito meses. Para conseguir continuar a jornada de amamentação em livre demanda, contratei uma babá e consegui trabalhar alguns dias em casa pela manhã deixando-o na escola à tarde. A escolarização precoce e a baixa imunidade por uma neutropenia e uma anemia ferropriva descobertas depois de um episódio de internação aos 11 meses, fizeram ter na nossa rotina diversos episódios de viroses, rinites, sinusites desde os 8 meses. Ele ficava doente duas vezes no mês e a amamentação noturna também supria essa demanda do colo e da nutrição de que ele necessitava. Até então, sozinha e sem o pai que trabalha em outro estado, consegui segurar o processo. Porém, no final do ano, já esgotada, adoeci. Fiquei de licença dois meses para me tratar. Nesse momento chegava a conclusão de que o desmame noturno precisava acontecer, sobretudo para a minha saúde. Ele ia completar 1 ano e meio e eu precisava cuidar de mim para também conseguir continuar amamentando e cuidar dele.

Ao conversar sobre isso com minha mãe no Natal, ela topou assumir o processo, mas eu não sabia por onde começar. Tinha receio de começar o desmame fora da rotina dele, já que todas as indicações sugeriam o contrário e não queria que nós dois passássemos por um desmame abrupto. Tenho muito apego à nossa história de amamentação e sempre achei que processos fortalecem escolhas.

Em janeiro, com a casa cheia, ela me cobrou novamente que começássemos o processo de desmame noturno e eu pedi mais um tempo. Tinha acabado de começar a pesquisar mais profundamente sobre desmame gentil e de conhecer a coleção “Conto com você”. Decidi que primeiro ia estudar sobre o processo para depois tomar a decisão do momento de começa-lo. Comprei o livro e aproveitei as férias do meu marido para lermos juntos com o Theo.

Ao longo de quase um mês lemos o livro, conversamos sobre noite e dia, sol e lua, mas amamentação noturna ainda continuava. Ao contrário do que se indica, eu precisaria começar o desmame fora da rotina dele. Sozinha e sem rede de apoio, decidi que faria isso na casa da avó, nas minhas férias no mês seguinte. E assim foi.

A vovó Julia assumiu as noites por três semanas consecutivas. Tudo foi fluindo de forma muito gentil no despertar das madrugadas com muito colo, água e lembrando para o Theo que era noite e o mamá e a mamãe estavam dormindo e descansando. Minha mãe, ciente de todo o processo, o lembrava que ele também precisava dormir para descansar e a vovó também. As 6h da manhã, ao longo dessas três semanas, minha mãe me entregava ele na cama para o mamá da manhã. O desafio desse desmame noturno, porém seria na volta para casa e para a rotina. A largada do processo havia sido dada, mas estaríamos sozinhos, eu ele novamente e o peito era o nosso lugar de encontro.

Voltamos para casa e as duas primeiras semanas foram muito difíceis. Cedi a amamentação algumas madrugadas, dei muito colo, chorei junto e na segunda semana decidi que ele precisaria de um copo de leite. Ele não aceitava nem o copo de água, nem o de leite, nem colo. Numa dessas noites de desespero e cansaço, sempre repetindo a história do livro antes de dormir, decidi que a primeira acordada da noite teria uma mamadeira. E assim foi.

Dormindo às 20h30, a primeira acordada era sempre entre 0h e 1h. Passei a dar a mamadeira e continuar repetindo nas próximas duas ou três acordadas da noite a história do livro (ele precisava descansar e eu também, ainda tinha lua no céu, o mamá estava mimindo) sempre com a voz bem baixa e sonolenta. Tínhamos também um mantra antes do mamá do peito da noite. “Se o Theo acordar mamãe vai dar beijo, abraço e água” e ele repetia comigo.

Continuamos nesse processo por quase dois meses.

Internalizando nosso mantra do “beijo, abraço e água” ao longo desse tempo, fui jogando essa mamadeira para mais e mais tarde, sempre repetindo a história do livro, até que consegui que ele aceitasse somente água na madrugada e a mamadeira quando “o sol raiasse”. Concluímos o desmame noturno, mas incluimos uma mamadeira nas manhãs.

Me culpei muito por dar uma mamadeira para uma criança que até 1 ano e 8 meses sequer havia tomado um copo de leite artificial. Mas ela foi fundamental, pois consegui, além do desmame noturno, retirar o peito da manhã. Como ele acordava pedindo o mamá desesperado quando o dia raiava, os mamás no peito da manhã passaram a ser longos demais e muito sofridos para terminar. Eu precisava arrumar tudo para sair para trabalhar e ele para a escola. A mamadeira passou a ser o mamá da manhã. Nesse momento, voltei a trabalhar o dia todo fora de casa e ele entrou no semi-integral na escola, de 9h às 17h30. Com o desmame noturno ele passou a dormir melhor e eu também. Dormindo todos melhor, consegui também mais energia para cuidar de mim, da minha vida profissional e, consequentemente, também dele.

Todo o processo, desde o início das leituras até o desmame noturno total, durou quase quatro meses. O livro “Mamar quando o sol raiar” foi fundamental para que ele visualizasse as situações diárias da evolução do que ele já conseguia fazer como comer, brincar e descansar, além de ser muito elucidativo para a noção de noite e dia que passamos também a construir ao tentar observar a lua e o sol através da janela do quarto diariamente. Mamar quando o sol raiar é também uma preparação para a família, pois o desmame noturno é um evento que impacta a todos diretamente. Como sou grata ao livro da coleção por nos ajudar nessa empreitada!

O próximo passo desse processo já foi dado. Aproveitei mais um momento fora da rotina para outro combinado: o mamá do “pepeto” agora seria só na hora de dormir. Passamos uma semana de recesso novamente na casa da avó depois de dois meses de desmame noturno completo. Rodeados pelo pai, avós, primos e tios e com todos para dar atenção, ele passou a mamar somente antes de dormir.

O desafio novamente seria a volta para casa e a retirada da mamada da volta da escola gentilmente. O momento após a escola que era crítico, pois ele já chegava dependurado arrancando a minha roupa, foi substituído por frutas, brincadeiras e muita conversa. Utilizei também como estratégia a descida para o parquinho do condomínio antes da ceia às 20h. Tem funcionado, ainda que vez ou outra ele peça “mamá mimi” às 18h. Continuo lembrando que ele agora já tem 2 anos e só mama antes de dormir. Ele se distrai novamente e aceita. Seguimos confiantes agora para o “Tchau, tetê” esperando o mesmo sucesso e acreditando cada dia mais que o desmame total gentil e cheio de afeto é possível.

Obrigada, Fernanda por acreditar nesse projeto!

(Priscilla Kelly Figueiredo)

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